Todos os dias pela manhã, Vicente Paulo de Melo, 64 anos, coloca um chapéu de palha e sai de casa, na QNL 10 de Taguatinga, com um carrinho cheio de galões de água. Anda até o fim da rua, onde se deparara com uma praça com flores e árvores frutíferas plantadas e cuidadas por ele, além de um Ponto de Encontro Comunitário e um parque infantil - duas obras encabeçadas pelo aposentado, que apresentou um abaixo-assinado à administração regional. Desde então, ele trata daquele espaço com carinho. “Já vivi muita coisa, agora quero poder cuidar daqui e ter uma casa boa para morar”, pede.
Reconhecimento
A vizinhança reconhece o trabalho de Vicente. “A praça era completamente abandonada, só com algumas árvores e brinquedos enferrujados. Agora, está bonita e bem cuidada por causa do Vicente”, comemora o aposentado José Damião Lagares, 69, que enumera as mudas doadas pelos vizinhos e já plantadas: manga, abacate, romã, pitanga, ameixa, acerola, flores. “Daqui a um tempo, todos poderão vir e comer daqui”, completa.
O que incomoda são os recursos retirados da própria casa para o cuidado com a área pública. “A conta de água vem alta, mas nem tem como brigar. É o passatempo dele”, conta a filha Valéria, 39, que reivindica um hidrômetro na própria praça.
Entretanto, a administração regional afirmou que havia um contador de água no local há alguns anos, “mas algumas pessoas estavam utilizando para uso próprio”. Agora, a promessa é que o local seja incluído na rota do projeto dos caminhões pipas que, dia sim, dia não, passarão na praça para regar as plantas tratadas pelo jardineiro.
“Prefeito”
Vicente usa os conhecimentos adquiridos ao longo da vida para cuidar de suas plantinhas, como chama com orgulho. E tem ajuda de outros aposentados que, quando podem, se inserem na rotina do jardineiro. “Ele é o prefeito da praça”, garante o aposentado Sebastião Vieira, 79, mas o Jardineiro Cidadão dispensa o título. Diz gostar de ir à praça para, além de tratar de suas plantações, conversar e fazer novas amizades.
Campanha pede auxílio a família
Ao falar do passado de dificuldades, Vicente chora, mas logo abre um sorriso. Ficou órfão aos 13 anos e precisou se virar para sobreviver, mas conquistou a casa que mora hoje por três cruzeiros. Na época, era uma inscrição de cooperativa. Em um domingo de 1973, seu nome no jornal representava a conquista da casa própria. “Sou feliz, sim. Para mim, tristeza não tem vez”, diz.
Enquanto o jardim é cuidado com a água que retira de sua própria casa, sua moradia precisa de reparos. Sem reboco e com chão batido, ele, a esposa Maria das Graças, duas filhas e duas netas sofrem com problemas respiratórios provocados pela poeira dos tijolos.
Por isso, em uma rede social, há uma mobilização para ajudar o aposentado que contribui para a comunidade. A ideia é a produção de um projeto para que cidadãos e empresas possam contribuir para a melhoria da residência da família. Por ele e a esposa serem idosos, os cuidados devem ser especiais. Já são mais de 400 pessoas mobilizadas na internet.
Saiba mais
Vascaíno, Vicente ganhou das equipes de basquete e futebol do clube duas camisas autografadas para que sejam leiloadas. Há alguns anos, Roberto Dinamite, presidente da equipe carioca, enviou uma camiseta ao jardineiro, que guarda com orgulho.
Até o momento, a arquiteta Natália Leite é a única profissional a integrar a equipe do projeto de reforma da casa de Vicente. Sensibilizada com a história, ela será responsável pela parte técnica.
Fonte: Da redação do Jornal de Brasília








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