sábado, março 15, 2014

Aumento do fanatismo estimula massacres no interior de Mianmar

 

 
 
DU CHEE YAR TAN, Mianmar – Sob a pálida luz da lua de 13 de janeiro, Zaw Patha viu de sua casa de bambu enquanto Mohmach, 15 anos, seu filho mais velho, era arrastado do quiosque onde ele dormia para tomar conta do negócio da família.
 
Segundo a mãe relatou durante entrevista, os homens que sequestraram o garoto bateram nele com a coronha de um rifle até que ele caiu na rua de terra. Aterrorizada, ela fugiu para os arrozais. A mãe presume que ele esteja morto.
 
A três portas dali, Zoya, vestindo túnica preta, mostrou o trinco da porta da frente que teria sido arrombado por homens armados que invadiram a casa e começaram a bater em seu filho de 14 anos, Mohamed. Ela não voltou a vê-lo.
 
Os relatos dos moradores dão suporte a uma investigação das Nações Unidas, que concluiu que o ataque contra Du Chee Yar Tan naquela noite resultou nas mortes de pelo menos 40 homens, mulheres e crianças, um dos piores exemplos de violência contra os muçulmanos rohingya, há muito tempo perseguidos no país. Segundo a ONU, eles foram mortos por forças de segurança locais e civis do grupo étnico rival rakhine (também chamado arracanês ou marma), muitos dos quais partidários de uma ideologia budista radical, furiosos pelo sequestro de um policial de sua etnia por um grupo rohingya.
 
O governo de Mianmar, buscando investimentos e aceitação internacionais, tem constantemente negado as matanças ocorridas no vilarejo, uma série de povoados espalhada por arrozais viçosos perto de Bangladesh e a cinco horas de balsas subindo o lânguido Rio Kaladan a partir de Sittwe, capital do estado. A comissão de direitos humanos do país qualificou a notícia de "inverificável e não confirmada".
 
Entretanto, as descobertas da ONU se tornaram emblemáticas da violência crescente contra o povo de rohingya de Mianmar, estimados em 1,3 milhão de pessoas que não tem direito à cidadania segundo as leis do país.
 
Apresentando ao governo pelas Nações Unidas e os Estados Unidos, mas não tornado público, o relatório da ONU documenta a descoberta inicial da chacina de cinco muçulmanos que entraram na área depois do ataque. Eles encontraram as cabeças decepadas de pelo menos pelos dez rohingyas flutuando num tanque de água. Algumas das vítimas eram crianças.
Rohingya villagers show a charred Quran as evidence of violence by a mob in Du Chee Yar Ta village near Maungdaw, Myanmar, Feb. 21, 2014. Killings of the Rohingya Muslims are a test for Myanmar's government, which has done little to rein in the violence even as it pursues broad economic and political reforms.
Adam Dean/The New York Times
A man reads the Quran in a mosque in a Rohingya neighborhood of downtown Sittwe, Myanmar, Feb. 18, 2014. Killings of the Rohingya Muslims are a test for Myanmar's government, which has done little to rein in the violence even as it pursues broad economic and political reforms.
Adam Dean/The New York Times
 
Um dos homens disse ter ficado tão perturbado que achou os olhos estavam lhe pregando peças na escuridão, e ele pôs as mãos no tanque para confirmar pelo toque que viu o que pensava.

Os assassinatos são um teste para o governo de Mianmar, que pouco fez para controlar os budistas radicais, mesmo quando busca reformas políticas e econômicas amplas para mudar as regras criadas pelos antigos líderes militares. O governo apoiou as restrições severas impostas pelas autoridades locais à liberdade de movimento dos muçulmanos e à falta de serviços básicos no estado de Rakhine, onde vive a maioria do povo rohingya.
 
O banho de sangue também é um desafio para os governos ocidentais que despejaram ajuda econômica e boa vontade em Mianmar na esperança de ganhar a fidelidade da democracia nascente rica em recursos naturais. De acordo com diplomatas, a maioria dos países ocidentais não se manifestou em relação ao tratamento do povo rohingya na esperança de convencer o governo a mudar de postura.
 
Desde 2012, muitos rohingyas, grupo há muito tempo desprezado pela maioria budista de Mianmar, têm sido mantidos em campos miseráveis dos quais não podem sair nem para trabalhar. Quem ainda tem o direito de morar em vilarejos como Du Chee Yar Tan está à mercê das autoridades locais, muitas das quais se inspiraram no grupo budista radical cujos monges usaram as novas liberdades do país para viajar de motocicleta pelo interior pregando o ódio aos muçulmanos.
 
A carnificina mais recente é uma vergonha grande para o governo, que acabou de assumir uma posição importante como presidente anual da Associação de Nações do Sudeste da Ásia.
 
Em resposta ao grande surto de violência de 2012 em Sittwe, marcado pelo bombardeio de casas e que deixou estimados 300 mortos, em sua maioria muçulmana, o presidente de Mianmar, Thein Sein, afirmou que a maioria dos rohingyas estava ilegalmente no país, apesar de ali viverem há gerações, em alguns casos. Sua solução: as Nações Unidas deveriam deportá-los.
 
Aung San Suu Kyi, premiada com o Nobel da paz e líder da oposição, é raramente questionada dentro do país sobre a discriminação contra os rohingyas pelo fato de ser amplamente aceita em Mianmar.
A woman serves customers in a market near the Thae Chaung camp for displaced Rohingya in Sittwe, Myanmar, Feb. 16, 2014. Of the 18 townships in Rakhine State, seven have barred Muslims from using their clinics. Killings of the Rohingya Muslims are a test for Myanmar's government, which has done little to rein in the violence even as it pursues broad economic and political reforms.
Adam Dean/The New York Times
Children study the Quran in a camp for displaced Rohingya people in Sittwe, Myanmar, Feb. 16, 2014. Killings of the Rohingya Muslims are a test for Myanmar's government, which has done little to rein in the violence even as it pursues broad economic and political reforms.
Adam Dean/The New York Times

 
Ela defendeu sua falta de ação à imprensa estrangeira afirmando que assumir uma posição poderia aumentar ainda mais as tensões, explicação que até mesmo seus aliados ocidentais acreditam ser calculada para evitar ofender eleitores antes das eleições do ano que vem.
 
Embora tenham acontecido ataques a outros grupos muçulmanos em Mianmar nos últimos dois anos, a animosidade em relação aos rohingyas é especialmente inflamável. Muitos foram trazidos ao país da Índia durante a época colonial britânica, e muitos birmaneses os consideram invasores do que agora é Bangladesh.
 
Aproximadamente 140 mil rohingyas cujas casas foram destruídas em dois grandes ataques em 2012 agora vivem em mais de duas dezenas de campos ao redor de Sittwe, decadente centro comercial. Em grande medida dependendo da assistência de grupos humanitários internacionais, que costumam ser importunados pelas autoridades locais, os rohingyas continuam presos nos campos; os voluntários internacionais os chamam de as maiores prisões a céu aberto do mundo.

O porta-voz presidencial, U Ye Htut, afirmou em entrevista telefônica que os planos do ano passado para o "reassentamento e reabilitação" das pessoas nos campos foram suspensos porque os "bengalis não aceitaram e atiraram pedras", usando um termo comum em Mianmar para os rohingyas, indicando a crença de que seu lugar é em Bangladesh.
 
De acordo com voluntários estrangeiros, dos 18 municípios do estado de Rakhine, sete já impediram que os muçulmanos usassem suas clínicas. Relatório divulgado na semana passada pela Fortify Rights, grupo especializado nos rohingyas, registrou um padrão de discriminação pelo governo que está se intensificando à medida que as autoridades locais parecem cada vez mais desesperadas em expulsar o grupo. Diversos documentos de 1993 a 2008, que vazaram, mostram a iniciativa governamental de reduzir o crescimento da população rohingya, incluindo a exigência de permissão oficial para o casamento e limites ao número de filhos que os casais podem ter. O porta-voz da presidência, Ye Htut, desprezou os achados como "uma visão unilateral dos bengalis".
 
Como saída dos campos lúgubres, aproximadamente 80 mil rohingyas se arriscaram no ano passado em jornadas perigosas pelo mar organizadas por contrabandistas para a Tailândia, Malásia ou norte de Bangladesh. Alguns se afogaram em barcos que viraram, e muitos foram presos na Tailândia, disse Chris Lewa, diretora do Projeto Arakan, grupo de defesa dos direitos humanos.
"Eles acham que o risco vale a pena."
 
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Lay Lay Win lays with her child after giving birth in a clinic north of Sittwe, Myanmar, Feb. 20, 2014. Of the 18 townships in Rakhine State, seven have barred Muslims from using their clinics. Killings of the Rohingya Muslims are a test for Myanmar's government, which has done little to rein in the violence even as it pursues broad economic and political reforms.
Adam Dean/The New York Times
 
Fonte:The New York Times

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