sábado, março 15, 2014

Africanos desesperados batem como podem à porta da Europa

Africanos desesperados batem como podem à porta da Europa               

 
MELILLA, Espanha ‒ É fácil identificar os recém-chegados ao centro para imigrantes nesse pequeno trechinho espanhol no norte da África: um homem tenta se equilibrar nas muletas por causa de um tornozelo engessado; o outro está com o braço imobilizado em uma tipoia. Abbdol Cisse, de 19 anos, levou pontos no rosto.
 
"A polícia marroquina estava jogando pedra em nós, na nossa cabeça", contou ele há pouco tempo, para explicar os ferimentos. "Tinham barras de ferro e batiam nas nossas pernas durante a subida."
 
Dez anos atrás a Espanha gastou mais de trinta milhões de euros para erguer barreiras ao redor de Melilla e Ceuta, seus dois enclaves plantados em pleno Marrocos, litoral norte da África, que representam a única fronteira terrestre entre a promessa da Europa e o desespero da África. Durante um tempo, o investimento pareceu funcionar.
 
No último ano, porém, grandes grupos de imigrantes da região subsaariana vêm tentando escalar as cercas de quase 6,5 m ou contorná-las a nado com uma frequência cada vez maior, acreditando ‒ e com razão ‒ que se conseguirem ultrapassá-las, chegarão à Europa. Na maioria dos casos eles terminam feridos, não só por causa das quedas e da nova concertina, mas das mãos das autoridades marroquinas e espanholas que tentam barrá-los.
 
Em fevereiro, a Polícia Militar espanhola de Ceuta, ao se deparar com 250 imigrantes escalando as cercas e/ou nadando perto da costa, disparou balas de borracha na água, causando revolta nos oficiais da União Europeia e ativistas dos direitos humanos.
 
Entretanto, ainda não ficou claro se os membros da Guardia Civil acertaram os homens ou se eles se afogaram na confusão, mas, até agora, quinze corpos foram retirados da água.
Sub-Saharan immigrants keep warm by a fire in a hidden camp near Beni Ansar, Morocco, Jan. 23, 2014. Migrants hide out from police here awaiting a chance to cross the border into the Spanish enclave city of Melilla, where the authorities have met the wave of immigrants with hostile measures from fence-building and increased patrols to rubber bullets and rapid deportations that are illegal under European Union law.
Samuel Aranda/The New York Times
A migrant washes his face in a small river on the slopes of Mount Gourougou, near Beni Ansar, Morocco, Jan. 23, 2014. Migrants hide out from police here awaiting a chance to cross the nearby border into the Spanish enclave city of Melilla, where the authorities have met the wave of immigrants with measures illegal under European Union law including summary deportations.
Samuel Aranda/The New York Times
 
A princípio, as autoridades espanholas negaram ter havido qualquer disparo; depois, admitiram as balas, gerando um debate sobre o tipo de ação a ser tomada para lidar com imigrantes que não representam uma ameaça imediata ‒ e fazendo com que Cecilia Malmstrom, Comissária de Assuntos Internos da Comissão Europeia, exigisse esclarecimentos.
 
Questão que atormenta a Europa há anos, os imigrantes ‒ fugindo de guerras ou simplesmente em busca de um futuro melhor ‒ tentam atravessar suas fronteiras, muitas vezes morrendo em barcos minúsculos rumo às Ilhas Canárias, que fazem parte da Espanha, à ilha italiana de Lampedusa, chegando até a caminhar pela Turquia para entrar na Grécia ou Bulgária ou, como estão fazendo agora, avançando contra as cercas desses enclaves, em busca de um buraco qualquer, por menor e mais difícil que seja.
 
Os espanhóis, que não pareciam nem um pouco arrependidos de suas ações, passaram então a pedir ajuda à União Europeia, inclusive financeira, alegando que o dever de proteger as fronteiras da Espanha não era só seu. Estão também pensando em mudar as leis para facilitar a expulsão imediata dos imigrantes que consigam pular a cerca.
 
"A legislação não está preparada para lidar com eventos como os tumultos ocorridos em Ceuta e Melilla", afirmou o Ministro do Interior, Jorge Fernández Díaz.
 
Atualmente veículos militares circulam nas estradas perto da cerca em Melilla e os helicópteros sobrevoam a área em uma patrulha constante. O abrigo aqui está tão lotado que homens como Cisse dormem em beliches triplos, aglomerando quinze no espaço pouco maior que um quarto de dormitório de faculdade.

Apesar de tudo isso, é difícil não perceber o entusiasmo deles, pois sabem que estão a caminho de conquistar o que desejam. A maioria passou por péssimos bocados e agora vai ficar um ano, até mais, no centro enquanto corre o pedido de asilo. Poucos são aprovados, mas quase todos acabarão sento transferidos para o país antes de receberem a ordem de deixá-lo.
Sub-Saharan immigrants gather around a cooking fire at a hidden camp near Beni Ansar, Morocco, Jan. 23, 2014. Sub-Saharan migrants hide out from police here awaiting a chance to cross the border into the Spanish enclave city of Melilla, a tempting target thanks to the fact that Spain has no extradition treaty with many African nations.
Samuel Aranda/The New York Times
A migrant who said he was beaten by Moroccan police rests near a camp near Beni Ansar, Morocco, Jan. 23, 2014. Sub-Saharan migrants hide out from police here awaiting a chance to cross the nearby border into the Spanish enclave city of Melilla, where the authorities have met the wave of immigrants with measures illegal under European Union law including summary deportation.
Samuel Aranda/The New York Times
 
A grande maioria não pode ser deportada porque a Espanha não tem tratados com quase nenhum dos países de onde eles vêm ‒, ou seja, em uma reviravolta que praticamente anulou os esforços dos europeus há décadas de proteger suas fronteiras, muitos daqueles que conseguiram pôr os pés em Melilla e Ceuta estarão livres para permanecerem na Espanha ou outra nação que lhes ofereça a perspectiva de uma vida melhor.
 
Ao justificar a instalação de concertina sobre as cercas altíssimas no fim do ano passado, o governo espanhol disse que o número de imigrantes tentando escalar a barreira tinha subido quase 50 por cento no início de 2013. Números recentes confirmam isso: no ano passado, 4.235 imigrantes chegaram por terra, em comparação com 2.841 do ano anterior. Nas últimas semanas, as investidas continuaram em um ritmo constante, com os homens muitas vezes usando luvas improvisadas para protegerem as mãos.

Em fevereiro, outro grupo, armado com paus e pedras, literalmente atacou Melilla, sendo que cem conseguiram passar para o lado espanhol. Muitas tentativas, no entanto, fracassaram e as forças marroquinas prenderam 96 pessoas, das quais 14 foram hospitalizadas.
 
Há acusações de que os espanhóis teriam devolvido os imigrantes a Marrocos mesmo tendo eles alcançado solo espanhol, o que lhes dá direito a pedir asilo.
 
"Ouvimos falar disso o tempo todo", diz Isabel Torrente, chefe da Asociación Melilla Acoge, grupo de defesa de imigrantes. "Antes os imigrantes se escondiam se conseguiam pular a cerca; hoje, se desesperam para serem vistos. Na verdade, se puderem escalam até poste para serem vistos pelas pessoas."
 
A cerca não é o único caminho para se chegar aos enclaves; segundo os especialistas, as mulheres subsaarianas preferem usar barcos. Mais recentemente a região vem atraindo um grande número de sírios que, por se parecerem mais fisicamente com os marroquinos e terem mais dinheiro, podem comprar ou alugar passaportes locais e simplesmente atravessar a fronteira a pé, discretamente, com outros operários.
Sub-Saharan immigrants keep warm by a fire in a hidden camp near Beni Ansar, Morocco, Jan. 23, 2014. Migrants hide out from police here awaiting a chance to cross the border into the Spanish enclave city of Melilla, where the authorities have met the wave of immigrants with hostile measures from fence-building and increased patrols to rubber bullets and rapid deportations that are illegal under European Union law.
Samuel Aranda/The New York Times
Sub-Saharan migrants look down from the mountains above at Melilla, a Spanish enclave city on the North African coast, near Beni Ansar, Morocco, Jan. 23, 2014. Migrants hide out in back-country camps here, awaiting a chance to cross the nearby border to Melilla, where the authorities have met the wave of immigrants with measures illegal under European Union law including summary deportation.
Samuel Aranda/The New York Times
 
Uma vez aqui, porém, fazem de tudo, menos ficarem quietos. Há pouco tempo, mais de cem deles, incluindo crianças pequenas, acamparam no parque em frente à Prefeitura de Melilla porque se recusavam a ser levados para um abrigo superlotado em uma região isolada do território, cuja área equivale a vinte por cento de Manhattan.
 
Depois de um tempo, o grupo recebeu a oferta de ficar ao lado de uma mesquita e cemitério muçulmano, onde permaneceram acampados, apesar dos fortes ventos que castigam a região no inverno. Muitos pertenciam à classe média antes do início da guerra; outros tantos vagaram durante quase dois anos, tentando chegar à Europa.
 
Até que, finalmente a Espanha concordou em levar 125 sírios para o continente mais rapidamente que outros imigrantes. A noite anterior ao embarque na balsa com destino à Espanha, no fim de janeiro, alguns alugaram quartos de hotel modestos para poderem tomar banho.
 
Já os africanos subsaarianos não teriam condições de pagar esse luxo de maneira alguma. Para os homens, transpassar o obstáculo é o último passo na cartada final para chegar à Europa depois de mais de dois anos viajando ou morando nas colinas atrás de Melilla, na periferia da cidade marroquina de Nador, em situação desesperadora.
 
Nas florestas daquele país, alguns homens dormiam em cavernas ou sob pedaços de plástico, procurando comida nas latas de lixo da cidade. Em visita recente, vi cinco homens que pareciam ter uma das pernas quebradas e três com braços fraturados por causa de encontros com a polícia marroquina, como denunciaram eles, que pedem uma consulta com a Cruz Vermelha.
 
Pouquíssimos, entretanto, pensam em voltar para casa. "Passei dois anos viajando por terra de Camarões até aqui e mais dois me escondendo nas florestas", conta Musa Bankura, de 36 anos. "Minha família gastou tudo o que tinha. Não posso voltar de mãos vazias."
 

Abbdol Cisse, from Mali, at a refugee processing center where men sleep 15 to a room, in Melilla, Spain, an enclave city on the North African coast, Jan. 22, 2014. Cisse says that he and a group of migrants scaling the fence between Morocco and Melilla the night before were attacked as they climbed by police with metal bars.
Samuel Aranda/The New York Times

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