O ano letivo nem acabou, e os aumentos previstos já pesam na mochila dos estudantes. Nos últimos 12 meses, a inflação da educação teve a maior taxa desde janeiro de 2005, com alta de 9,1%. Não bastasse o reajuste das escolas particulares, que podem chegar a 21%, o preço do material escolar deve ficar, em média, 10% mais caro.
De acordo com a Associação Brasileira dos Fabricantes e Importadores de Artigos Escolares e de Escritório (ABFIAE), os produtos fabricados em território nacional (caneta, borracha) podem aumentar até 11%, enquanto os importados (mochilas, lancheiras) devem ficar até 35% mais caros.
“Sentimos na pele um aumento em torno de 10%”, confirma José Aparecido, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Material de Escritório, Papelaria e Livraria do DF (Sindipel-DF). “O problema que enfrentamos é que temos um país em recessão, uma inflação alta, um dólar que oscila demais e um juro muito alto, que são o que causam aumento”, diz.
Presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF (Aspa-DF), Luis Claudio Megiorin lembra que os materiais de uso coletivo (resma de papel, copos descartáveis) não devem ser comprados pelos pais, pois são computados na planilha de custos que justifica o aumento anual das mensalidades.
“Material de uso individual é o que o aluno pode levar para casa e para a escola. É importante os pais dosarem o que é pedido na lista a partir do volume usado pelo aluno, atentar para o que a legislação diz e identificar todo o material”, recomenda.
Elevações
O presidente do Sindipel-DF conta, por sua vez, que os produtos escolares têm carga tributária entre 38,3% e 43,3%. “É quase a metade do produto”, destaca. Mais que isso, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), canetas são taxadas em até 47%, apontadores e borrachas, em 43%, caderno universitário e lápis, em 35%.
“Com aprovação do projeto, haveria redução de taxas e valores finais. Hoje temos uma redução média de 23% nas vendas”, revela o presidente do sindicato. Ele se refere ao Projeto de Lei 6.705/2009, que tramita há cinco anos na Câmara dos Deputados e que dispõe sobre a isenção do IPI e alíquota zero de PIS/ Pasep/Cofins para materiais escolares.
Compras antecipadas
Justamente por causa do aumento anual dos itens escolares, há pais que preferem antecipar as compras. A servidora pública Hetel Santos, de 46 anos, começou a busca por novos uniformes para Justine, que, aos nove anos, deve passar para o quinto ano do Ensino Fundamental.
“É normal esperarmos um aumento de um ano para o outro, e eu me programo. Compro uniforme entre outubro e novembro para pegar o preço do ano vigente e adquiro materiais e livros até o começo do ano, antes das férias, de preferência”, explica.
Em um cenário de aumento de juros, impostos e dólar, o reajuste de materiais acontece quando as mensalidades escolares também passam por mudanças. O JBr. mostrou, no mês passado, que as mensalidades das instituições de ensino particular do DF podem ficar até 21% mais caras. “São vários itens que, somados, fazem toda a diferença. Tem que pesquisar cada vez mais mesmo, comprar com outros pais, por atacado. Isso pode ajudar”, afirma Hetel Santos.
Na casa delas, os desenhos das capas de caderno têm pouca importância: “Nós customizamos, decoramos o caderno que compramos com a capa mais comum. A educação é um fator que a gente não economiza, busca tratar com maior prioridade. Queremos o melhor para nossos filhos dentro do que cada um pode fazer”.
Ajustes e substituições com a crise
Formada em Economia, a dona de casa Rafaela Torres, 39 anos, consegue economizar até 50% nas compras anuais de materiais escolares. Ela pega as listas dos amigos dos filhos para comprar no atacado e fez disso um negócio. No ano passado, suas compras foram para 118 alunos. Para o mês que vem, já está com a lista de 50 crianças.
“Muitas famílias não têm tempo de fazer o que eu faço e deixam para o final, quando o preço está lá em cima. A economia é tranquilamente de 50% comprando em novembro, antes da remarcação. Dá trabalho, mas é possível economizar muito”, garante a dona de casa.
Rafaela conta que sempre pesquisou em, pelo menos, três papelarias para as compras dos materiais dos filhos, de cinco e nove anos. Os itens mais baratos de cada local são escolhidos.
“O preço sempre sobe na virada do ano. Agora, com essa crise, o aumento está sendo maior. É uma compra que não tem escolha. Toda escola passa a lista, e os pais têm que comprar”, lembra a mãe.
A crise, inclusive, fez com que ela adaptasse os gastos em casa: “Optei por tirar os filhos das aulas de idiomas. Tem que se ajustar nessa época mesmo, e o brasileiro sabe negociar. Em tempos de crise, essa é uma das ferramentas que temos nas mãos, cortando daqui e dali”.
Itens já estão mais caros
Alguns armarinhos, papelarias e lojas de artigos para estudantes já fizeram a troca das etiquetas. De acordo com a vendedora Stefanny Caroline, os materiais pequenos e básicos, como canetas, lápis de colorir, borrachas e pastas plásticas, estão mais caros. “A caneta azul da marca que mais sai passou de R$ 0,89 para R$ 0,99”, exemplifica.
Cadernos e agendas, no entanto, ainda não tiveram alteração de preço. “Pelo menos, não por enquanto”, ressalva. Mas as mochilas, lancheiras e estojos, que são importados, devem ter aumento maior.
Ela não é otimista em relação ao próximo ano letivo e espera redução de vendas. “Por causa da crise e dos aumentos, acredito que o movimento vai reduzir, como já aconteceu. Pais devem substituir marcas dos produtos por alguns mais em conta”, projeta.
Saiba mais
A Lei Distrital 4.311/1999 prevê que a lista de materiais escolares deve ser divulgada no período de matrícula, acompanhada do plano de execução ou utilização dos materiais solicitados.
Em 2013, a presidente Dilma Rousseff acrescentou um artigo na Lei 9.870/1999 que anula cláusulas contratuais que obriguem o pagamento adicional ou fornecimento de qualquer material de uso coletivo.
A escola também não pode exigir marcas de produtos ou cobrar, durante o ano letivo, materiais não assinalados na lista. Estudantes não podem ser impedidos de assistir às aulas por falta de fornecimento ou aquisição de itens, inclusive livros didáticos.
Fonte: Da redação do Jornal de Brasília








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