segunda-feira, novembro 10, 2014

Catadores temem desemprego

Dezembro é o prazo final para a conclusão das obras do aterro de Samambaia. Com isso, ao invés de todo o lixo da capital federal ser levado para descarte no Lixão da Estrutural, ele será levado para o novo aterro. O projeto foi concebido pensando na preservação do meio ambiente. Entretanto, preocupa as mais de 4 mil famílias da Estrutural que tiram do lixo o sustento de cada dia.

Para Silvano Batista, presidente da Cooperativa Recicla Brasil (Cooperbrace), a mudança do Lixão só vai desfavorecer os moradores da Cidade Estrutural, pois a grande maioria depende do lixo de alguma maneira. “Atualmente, cerca de 64% da população depende da reciclagem e só a nossa cooperativa absorve 25% de todo o material encontrado no Lixão. A renda da cidade depende da reciclagem, ou seja, do lixo”, explicou.

 A Cooperbrace foi criada há um ano e possui cerca de dez membros, sendo que sete são cooperados e o restante possui a carteira assinada pela cooperativa, como se fosse uma empresa.
A cooperativa recicla todo tipo de material e depois repassa para uma empresa de reciclagem de Taguatinga. Com isso, cada um dos membros consegue obter mensalmente, uma média de R$ 1.500.
Na opinião de Batista, o lixo oriundo da coleta seletiva deveria ser destinado às cooperativas de cada cidade. “O SLU é quem recolhe os materiais recicláveis depois que foi implantada a coleta seletiva no DF, mas esse material não está chegando até nós. O governo deveria destinar os pontos de coleta seletiva para as cooperativas de cada cidade, essa é uma política pública que deve ser destinada a nós”, defendeu.

Segundo o Serviço de Limpeza Urbana (SLU), para o aterro de Samambaia funcionar está faltando a primeira célula de operação ser finalizada, e o prazo de conclusão é dezembro. De acordo com a Novacap, responsável pela obra, parte de infraestrutura viária, como o asfaltamento, está em fase de conclusão, faltando apenas a finalização do acesso ao local e colocação de meio fio. As obras de drenagem já foram concluídas.

Entrevista


Preocupado com a situação das famílias da Estrutural, o deputado distrital Agaciel Maia (PTC) concedeu entrevista ao Alô Brasília e sugeriu algumas propostas que poderão ser feitas para amparar as famílias que hoje, sobrevivem do lixo.

Na sua avaliação, o que poderia ser feito com as famílias que dependem do Lixão?

O que precisamos fazer é pegar o pessoal que depende e sobrevive do Lixão e alocar em programas de qualificação profissional, como a Fábrica Social, em que se colocaria os pais para aprender uma profissão. Os jovens poderiam ser encaminhados para o Jovem Candango. Tudo isso para compensar o custo de vida que eles tiravam do lixo, assim como dar dignidade. As pessoas saem de uma atividade insalubre, que não é dignificante e entram em um programa no qual aprenderão uma profissão e ainda receberão uma remuneração, permitindo assim que eles construam sua família de uma maneira mais digna.
Foto: Roberval Eduão

Existe algum projeto específico sobre o assunto tramitando na Câmara Legislativa?

Já existem proposições aqui na Câmara nesse sentido, porque essa é uma ação do governo. O que o deputado pode fazer é uma indicação, ou seja, sugerir ao Executivo, mas não é da competência dele tomar essa iniciativa, pois tudo que resulta em gastos e despesas precisa ser iniciativa do governo. O governo deveria criar um projeto e enviá-lo para a Câmara aprovar. Existem na CLDF muitas sugestões que são encaminhadas para o Executivo e voltam na forma de projeto de lei para que a gente possa votar.


Como o senhor defende que seja feito o amparo às famílias dependentes do Lixão?
Tem que fazer uma transição, pois não se pode simplesmente acabar com o Lixão e deixar essas pessoas de lado. É uma obrigação do Estado fazer isso. O prazo dos fins dos lixões de todo o Brasil foi adiado simplesmente para que os governos de cada estado tenham a criatividade de fazer a migração dessas pessoas dependentes do lixo, para uma função mais digna em que consigam sobreviver ganhando dinheiro com seu próprio trabalho.

Falta de espaço para catadores



O SLU informou que no aterro de Samambaia não haverá espaço para os catadores. Para o aterro, vão ser destinados apenas o lixo rejeitado. Os catadores vão trabalhar em centros de triagem, para onde o lixo seco vai ser levado. Atualmente, esses resíduos são destinado para 32 cooperativas e, segundo o SLU, vai continuar dessa forma, com a implantação dos centros de triagem.

José Salustiano é vice-presidente da cooperativa Coopere e passa grande parte do dia dentro do Lixão. De acordo com ele, pelo menos 2,5 mil famílias dependem exclusivamente do lixo. “Nossa preocupação com o fim desse lugar é saber se vamos receber algum tipo de apoio. Nós já procuramos o Ministério Público (MPDFT) para receber uma indenização do governo pelo tempo trabalhado no Lixão”, contou.

A Coopere possui 600 filiados e aproveita 90% do lixo que recolhe. Ao contrário da Cooperbrace, na Coopere, o lucro dos associados é individual, ou seja, quem recolhe mais materiais recicláveis, recebe mais. Segundo Salustiano, todos os associados à cooperativas recebem um auxílio do governo federal de R$ 300, que deve parar de ser repassado quando o Lixão acabar.
Foto: Roberval Eduão

Proposta de Rollemberg - De acordo o Plano de Governo de Rodrigo Rollemberg, a política de gestão dos resíduos sólidos é considera fundamental o fortalecimento das cooperativas de catadores de materiais recicláveis. “Devemos garantir a geração de renda para as famílias que dependem dessa atividade. Entre as propostas apresentadas durante a campanha, está o fechamento do Lixão da Estrutural. Paralelamente a isso, a implantação efetiva do novo aterro sanitário. Também haverá a reestruturação dos órgãos da área para que se tenha em Brasília uma coleta seletiva de verdade em todas as regiões”, diz o texto.

Ainda de acordo com o plano do novo governador, o material recolhido na cidade vai ser encaminhado para os centros de triagem que serão construídos. Os catadores serão capacitados para que atuem com eficiência nesses centros, por meio das cooperativas. “Nós queremos que eles façam a triagem do material, mas que também tenham condições de atuar na reciclagem, o que vai melhorar a renda obtida na atividade. Sem dúvida alguma, vamos garantir melhores condições de trabalho para os catadores, que serão ouvidos pelo governo na definição das políticas públicas para a área de resíduos sólidos”.
 
Da Redação do Alô

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