Filas se formam em frente a lojas quando um novo celular ou tablet é anunciado. Às vezes não se passam nem seis meses e o mesmo produto, em nova versão, atrai quantidade maior de pessoas para frente dos estabelecimentos. O que acontece com os objetos descartados mediante a aquisição dos novos? Alguns são vendidos, outros usados como peso de papel, mas muitos vão simplesmente parar no lixo.
João Batista, 54 anos, teve uma ideia para dar fim justamente a todo esse lixo eletrônico produzido diariamente no DF. De quebra, ele ainda busca ter lucro e ser bem-sucedido. Juntou-se à colega Cristiane Arnaud, 47 anos, e, como sócios, eles estão à frente da Dioxil, empresa há cinco anos no mercado que dá o fim correto aos resíduos eletroeletrônicos. Todo o trabalho ocorre no Riacho Fundo II.
Descoberta
“A ideia surgiu depois que vi uma palestra na faculdade. A moça mostrou um vídeo com a quantidade de material não aproveitado nos países desenvolvidos que era enviado para descarte em países emergentes”, explica. Seu insight virou projeto de conclusão de curso da graduação e, mais tarde, tornou-se um plano de negócios.
O primeiro passo foi se interessar pelo tema e aprender, estudando individualmente e experimentando, como funcionava o descarte correto. Com essa expertise, registrou a empresa Dioxil – reciclando tecnologia em 2009 e, por meio de parcerias com o Sebrae e cooperativas, alugou o galpão e passou a receber o material a ser separado.
“Muitas vezes, quando acabava nosso capital de giro, vendíamos nossos bens. Já até me desfiz de um carro”, relata o empreendedor.
De volta à indústria
A realidade da empresa foi melhorando aos poucos. Com um quadro fixo de funcionários, treinados pessoalmente por João e Cristiane, e operações administrativas regulares, eles mantêm uma folha de pagamento de aproximadamente R$ 12 mil e trabalham com uma margem de lucro semestral de 10%.
“Quando ele me falou do projeto, eu acreditei na proposta. Passamos quatro anos à base somente de parcerias e doações antes de começarmos a ganhar alguma coisa”, diz Cristiane.
A maior conquista da Dioxil até o momento foi a vitória em uma licitação nacional para parceria com a Universidade de Brasília (UnB). A empresa apresentou um plano tecnológico de manufatura reversa dos resíduos. É um procedimento para transformá-los em matéria-prima de serventia à indústria. “Atualmente fazemos a descaracterização dos eletroeletrônicos, separamos os materiais e enviamos para outras empresas continuarem esse processo”, explica João. A ideia, portanto, é fechar o ciclo produtivo.
O Sesi/Senai é o mantenedor do projeto. Ele patrocina a pesquisa enquanto a UnB cede o laboratório e mão de obra. A Dioxil poderá patentear a manufatura reversa no Brasil, o que conferirá exclusividade ou renderá lucro caso alguém queira aplicar o procedimento.
Parceria local deve ser ampliada
As parcerias com empresas de informática e cooperativas garantem o fluxo de produtos a serem descaracterizados no galpão da Dioxil. A ideia, agora, é copiar esse modelo e implementá-lo em municípios adjacentes a Belo Horizonte (MG), na cidade do Rio de Janeiro e em Goiânia (GO).
“Queremos capacitar cooperados em outros estados para ampliar nosso alcance. Os aterros sanitários atuais não podem receber esses resíduos eletroeletrônicos, pois não há como lidar com os materiais tóxicos”, destaca João Batista.
Emergência
Segundo o mapa global do e-lixo, lançado ano passado pela Step, iniciativa entre a Organização das Nações Unidas (ONU), ONGs e governos, o Brasil produziu 1,4 milhão de toneladas de lixo eletrônico em 2012. Foi a segunda nação mais poluidora da América Latina, atrás do México. A média por brasileiro é de sete quilos, mesma média global.
O mundo produziu 49 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2012. Em primeiro lugar ficaram os Estados Unidos, com 9,4 milhões de toneladas – quase 30kg por habitante. Número seis vezes maior do que a segunda colocada: China.
Pense nisso
No filme vencedor do Oscar Wall-E, o planeta se tornou inabitável devido às pilhas de resíduos e insumo, que tornaram a sobrevivência difícil até para espécies vegetais. Iniciativas como a de João e Cristiane podem ser o caminho para que, assim como na animação, não precisemos ser ameaçados pelo que nós mesmos descartamos.
Fonte: Da redação do Jornal de Brasília








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