Foi o escritor norte-americano Charles Bukowski quem afirmou: “Enquanto um homem tivesse vinhos e cigarros à sua disposição, ele poderia resistir”. Na comemoração do Dia Mundial Sem o Tabaco, lembrado hoje, a opinião de especialistas e autoridades não poderia ser mais oposta à do artista. Quem desistiu do vício e hoje tenta ser mais saudável admite a tentação, mas atesta os benefícios.
Para os cofres públicos, a frase também está longe de ser verdade. De acordo com estudo da Aliança de Controle de Tabagismo (ACT), em 2011, os gastos do Sistema Único de Saúde (SUS) com o tratamento de doenças relacionadas ao tabagismo foram de R$ 21 bilhões. Esse valor é cem vezes maior, por exemplo, do que os custos relativos a internados por acidentes de trânsito - cerca de R$ 210 milhões, segundo o Mapa da Violência de 2013.
Os lucros proporcionados pela coleta de impostos sobre os cigarros não compensam os prejuízos. Segundo o Observatório de Tecnologias em Informação e Comunicação em Sistemas e Serviços de Saúde (Otics), o Brasil gastou 3,5 vezes mais com o tratamento das doenças do que arrecadou em 2011. Em mais de 80% dos casos, as doenças tratadas foram cardíacas, pulmonares obstrutivas crônicas, câncer de pulmão e acidente vascular cerebral. A estimativa foi de 350 mortes por dia devido a pelo menos uma dessas enfermidades.
Mudança
“Eu não era daqueles fumantes exagerados, sabe?”, conta o aposentado Jairo dos Santos, 65 anos. “Fumava, em média, um maço de cigarros a cada quatro dias. Parei por livre e espontânea vontade”, diz o idoso. Ele cita a família, além da preocupação com a saúde, como fatores decisivos para abandonar o cigarro.
“Meus netos viviam me mostrando aquelas fotos horríveis de doentes e pedindo para eu parar com o fumo. Qualquer probleminha de saúde que eu tinha e precisava ficar sem fumar eu tossia muito. Aí percebi ser aquela a hora de parar”, revela Jairo. Até o momento, promessa cumprida. Ele garante estar há seis anos sem “colocar nem um cigarrinho na boca”.
Segundo o coordenador do Programa de Tabagismo do GDF, Celso Rodrigues, menos de 30% dos fumantes consegue deixar o hábito da maneira de Jairo. “É importante procurar tratamento”, diz.
Hábito abolido
Geralmente, as mulheres têm mais dificuldade em relação ao tratamento, informa o coordenador do Programa de Tabagismo, Celso Rodrigues. A operadora de telemarketing Sônia Regina de Melo, 46 anos, sabe bem disso.
Mãe de três filhas, ela fumou pela primeira vez aos 15 anos. “A turminha toda fumava. Fui pegando um cigarro aqui, outro ali, e embarquei nessa”, confessa. O hábito durou quase 30 anos, e colocou em risco até mesmo suas gestações. Ela admite ter fumado durante todas as três. Por sorte, nenhum dos bebês teve qualquer problema.
Justamente as crianças acionaram a consciência da mãe. “Um dia vimos uma publicidade que perguntava qual o cheirinho da sua mãe. Minha filha mais nova respondeu ‘de cigarro’ e aquilo me marcou profundamente”, conta. Foi quando Sônia buscou ajuda.
Ela procurou um posto de saúde no P Sul, em Ceilândia. “Tomei medicamentos, usei adesivos de nicotina... No começo fiquei tonta, mas hoje sou outra pessoa”, afirma. Ela garante sentir melhor o gosto das comidas e está mais disposta.
Fumantes: 39% em 1996, 11% hoje
De acordo com a Secretaria de Saúde, há 71 unidades na capital capacitadas a oferecer, gratuitamente, um tratamento antifumo. Segundo a pasta, em Brasília são cerca de 280 mil fumantes, o que representa quase 11% da população. De 2006 até este ano, das mais de 36 mil pessoas atendidas, cerca de 21 mil estão sem fumar.
“Em 1996, quando o Programa de Tabagismo foi criado, os índices apontavam 39% dos habitantes como fumantes. Nossa ênfase é a prevenção”, exalta o coordenador Celso Rodrigues. Para ele, o trabalho principal está nas escolas, pois a fase de iniciação com o cigarro seria na faixa de 13 a 16 anos.
“O adolescente deve ser trabalhado no aspecto psicológico. Não adianta falar sobre doenças, pois os jovens nunca se enxergam doentes. Então falamos sobre os benefícios de nunca fumar”, explica. A conscientização utiliza os professores como intermediários. Em vez de palestras “chatas”, a secretaria incentiva a introdução do tema no conteúdo programático.
De acordo com a pneumologista Elizabethe Rosa Silva, do Hospital Santa Lúcia, o cansaço e a diminuição da disposição para atividades físicas se devem à maneira como o cigarro age sobre os pulmões. “Não existe uso seguro do tabaco. Algumas doenças levam um tempo para aparecer, pois o pulmão é muito resistente. Então, quando os sintomas aparecem, é porque as funções do órgão já estão bastante comprometidas”, alerta.
Ela cita enfisema pulmonar e bronquite crônica como duas doenças comumente relacionadas ao hábito de fumar continuamente. Também adverte para a incidência da chamada Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), na qual os brônquios são lesionados por substâncias de um cigarro, por exemplo, e isso dificulta a simples respiração rotineira.
Estilo de vida e exemplo
Lucas Bispo, técnico de informática de 21 anos, iniciou o hábito de fumar aos 16 anos, o que ele credita ao seu estilo de vida e ao ambiente familiar. “Eu bebia bastante e o cigarro acompanhava. Cresci vendo meu pai fumar, então acho que isso foi um dos fatores também”, analisa. Parar foi questão de percepção da realidade e força de vontade.
“Eu estava sempre exausto e o relaxamento ao fumar às vezes era somente um controle de ansiedade. A nicotina é traiçoeira por causa disso”, relembra. “Há sete meses eu não fumo. Na primeira semana, a ansiedade foi quase incontrolável. Agora eu já não sinto mais necessidade e fico feliz por ter tido determinação”, comemora.
Outro fator ajudou o jovem a tomar gosto pelo hábito: o sabor dos cigarros. Lucas gostava principalmente dos maços mentolados e, hoje, livre do vício, enxerga o uso de aditivos como um perigo aos adolescentes. “Querem vender o cigarro que não parece cigarro. Uma coisa mais suave para atrair crianças”, critica.
Desde 2010, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estuda proibir aditivos químicos no cigarro, o que inclui as substâncias produtoras dos sabores diversos. A decisão foi adiada, pelo menos, até setembro. Para Celso Rodrigues, da Secretaria de Saúde, a questão envolve certa “frouxidão” do Ministério da Saúde.
“Só não foi regulamentada, pois há um lobby muito grande da indústria do cigarro”, acusa. Ele diz que a situação é preocupante, pois dados da secretaria indicariam que mais de 50% de quem experimenta o fumo se torna viciado. E os aditivos mascaram o gosto natural do cigarro, o que aumentaria a chance de alguém gostar do produto.
MP move ação contra fabricante
A 4ª Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor (Prodecon), do Ministério Público do DF, ajuizou ação civil pública contra uma das maiores indústrias tabageiras do Brasil. A medida busca coibir a publicidade ilegal do cigarro, feita por promotores de vendas jovens em bares e eventos festivos no Distrito Federal. O produto é vendido pessoalmente aos consumidores, segundo o MP, “em clara ofensa à Lei 9.294/96, que limita a divulgação do cigarro ao acondicionamento das embalagens em expositores afixados na parte interna dos locais de venda”.
A investigação iniciou-se a partir de representação feita por Celso Rodrigues, da Secretaria de Saúde. Outra fonte foi uma matéria do Jornal, Campus da Universidade de Brasília (UnB), que flagrou jovens efetuando venda corpo a corpo em bares. Verificou-se, ainda, diversas publicidades veiculadas pela internet, o que é vedado pela legislação.
Fonte: Da redação do Jornal de Brasília








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