quinta-feira, fevereiro 06, 2014

O BOM EXEMPLO!!



O sargento Vilanova conversava com a reportagem do Jbr. quando, de súbito, virou a cabeça e anunciou: “Tenho que ir, não posso deixar meus meninos atravessarem sozinhos”. E foi. O policial militar se certificou de que quatro deficientes visuais não usariam a faixa de pedestres da 612 Sul, apenas esperariam o ônibus. Mesmo assim,   ficou para ajudar a chamar o transporte. Em tempos de Operação Tartaruga, a postura do servidor público se destaca.


“Esse serviço eu faço porque amo”, anuncia. “Eu procuro não me ausentar, porque senão fico preocupado com eles”, diz, enquanto ajuda uma senhora a embarcar no ônibus.
Vila, como é conhecido, patrulha a mesma área da Asa Sul há 23 anos, desde que se tornou policial. “Eu não tinha emprego na época e decidi fazer o concurso. Entrei para o Batalhão Escolar e estou aqui desde então”, conta, orgulhoso.

Ele nasceu Raimundo José Vilanova de Sousa, em Floriano (PI). Ficou em sua cidade natal apenas até completar um ano, quando veio para Brasília morar no Gama, onde reside até hoje. Casado com Ana Lúcia e pai de Guilherme, de 15 anos, é do tipo conversador e simpático, daqueles que cumprimentam todo mundo e inventam apelidos carinhosos. Seu jeito lhe rendeu muitos amigos no Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais.

Trabalho Comunitário
Maria do Carmo,   66 anos,   uma das alunas da escola, conhece Vila há quatro anos. Ela chegou à capital em 1968 e, aqui, em vez de desfrutar da terra de oportunidades, sofreu com a imprudência médica que a deixou cega. Com glaucoma e diabetes, Maria passou por cirurgia mal-sucedida, em 1982, e nunca mais pode usar a visão. “Tive que aceitar, né?! O quadro é irreversível”, conforma-se.
Com sorriso no rosto, ela não poupa elogios ao amigo. “Quase todo dia que eu chego, ele está na parada para me receber. É uma pessoa   cuidadosa”, exalta Maria. Agarrada a Vila, ela pode deixar a bengala de lado e caminhar sem preocupação.

A senhora foi uma das pessoas que, em maio  passado, se indignaram e fizeram abaixo-assinado para pressionar o comando da PM a enviar Vilanova de volta ao setor. Ele já havia subido ao posto de 3° sargento e a administração da época o moveu para uma viatura. Com os protestos, ele retornou. O Jbr. acompanhou o caso.

“Depois disso, o comandante  me perguntou se eu já tinha condecoração por honra ao mérito. Falei que não e ganhei uma medalha de Tiradentes”, relata. Ele se diz agradecido mas prefere não usá-la em serviço por se sentir “apenas um agente” e não gostar de ter “aquele negócio pendurado   no ombro”.

Serviço vai além
O semáforo da 612 Sul é adaptado para deficientes visuais, tendo o aviso sonoro, mas muitas vezes ele sofre alguma avaria. Sempre que isso acontece, Vilanova liga diretamente para a manutenção e garante que os problemas são resolvidos rapidamente. “Eles já me conhecem”, diz.
Apesar de a situação que a PM vive, de Operação Tartaruga ou Operação Lesma, ele garante que ninguém sequer mencionou o assunto para ele. E assegura jamais aderir a algo que atrapalhasse seu trabalho com a comunidade. “Esse tipo de coisa entra por um ouvido e sai pelo outro”, afirma.

“Ele me deu   confiança”
O jovem Leandro Martins da Silva, 25 anos, frequenta o Centro para Deficientes Visuais desde 2003. À época,  sua retinose não o havia debilitado completamente. Mas, ao completar 20 anos, seu mundo se tornou preto.
“Eu   tinha vergonha de pedir   que me ajudassem a pegar o ônibus. Aí fiquei sabendo do policial gente fina que sempre ajudava os outros e ele me deu mais confiança”, conta.

O carinho de Vilanova pelos seus “meninos” é, até certo ponto, inexplicável. A única pessoa com deficiência que cresceu com ele foi sua avó, deficiente visual. “Quando minha mulher estava grávida, até por eu ter muito contato com pessoas especiais, tive receio do que pudesse acontecer. Mas depois percebi que eu o amaria do mesmo jeito. É uma condição  única”, emociona-se.

A menos de dez anos da aposentadoria, o sargento  pretende ficar na mesma região. E ele fará isso com bastante orgulho e desejo. Prova disso é a urgência de voltar das férias, que acabaram na última terça-feira. “Estava agoniado para voltar”, diz. E talvez sua agonia se traduza no que ele   alega ter pelo trabalho: amor.
Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

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